Às vezes, amor próprio não tem cheiro de vela acesa nem cara de descanso perfeito. Às vezes, amor próprio é continuar, mesmo rasgada por dentro. É entrar na cozinha quando o mundo está trovejando por fora e por dentro, abrir a geladeira, desligar, esvaziar, esperar e limpar, como quem diz em silêncio: eu ainda estou aqui. Não é força bonita, não é frase pronta. É presença. Não é romantização da dor, é cuidado em estado bruto. Amor próprio também é lavar o que pesa, tirar o excesso, jogar fora o que não serve mais e sentir a água correr, percebendo que algo em você também se limpa. Mesmo cansada e sem vontade, o corpo sabe o caminho do cuidado antes da mente entender, e quando a casa respira, a alma acompanha. Tem dias em que não dá para se amar inteira. Então a gente se ama em partes, no gesto simples, no fazer possível, no silêncio que organiza por dentro enquanto as mãos organizam por fora. E isso basta. Por hoje, isso é amor próprio.